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No entanto, pessoas desconhecidas continuavam a entrar a todo momento, embrulhos suspeitos eram depositados a seus pщs, lэnguas estranhas ecoavam, com palavras que nуo conseguia entender, por mais que se esforчasse. Procurava raciocinar, agarrar-se a um fiapo de discernimento, que a fizesse compreender o que estava acontecendo. Mas nada, nada fazia sentido para ela. Sentia a boca seca, tossia sem parar. Seria um pesadelo do qual nуo conseguia despertar? Mas toda aquela confusуo parecia tуo real... Lembrou-se, entуo, nуo sabe bem por que, daquela ocasiуo em que se perdera nas ruas de um subњrbio distante. A mesma sensaчуo de pтnico, o mesmo atordoamento crescente. Aquelas ruas, estreitas e mal cuidadas, subiam e desciam, maltratando os pщs de quem se aventurasse, o sol forte aumentava o desconforto, nenhuma сrvore, nenhuma sombra... A tia doente, que nуo via hс muito tempo, a esperava. Jс estivera ali antes, como poderia se perder? Via a casa modesta, a tia de pщ, sorridente, na varandinha acanhada, as plantas de que tanto gostava... Um barulho terrэvel a trouxe de volta. De volta para o caos. Correu para o quarto, tropeчando na desordem, pegou uma pequena mochila e saiu, batendo a porta. De cabeчa baixa, apertando a mochila contra o peito, andou sem destino, sem direчуo, por alguns minutos. Parou para pensar. E agora, o que fazer? Um homem aproximou-se, solэcito, perguntando se precisava de ajuda. Nem respondeu, ninguщm poderia ajudс-la. Continuou a caminhar, enquanto resmungava (ora essa, me ajudar, nуo sei como.) Chegou a uma praчa, deserta рquela hora. Sentou-se, desalentada, em um banco de madeira e ficou olhando para os prѓprios pщs. (Deus meu, agora compreendia.) Estava de chinelos. Abriu a mochila rapidamente, р procura da bolsinha, onde costumava guardar o seu dinheiro. Nуo estava lс. E agora? Sem dinheiro e de chinelos... Tem um sonho recorrente. Estс sempre descalчa em reuniѕes, em festas, em passeios no shopping... Volta para casa envergonhada, sem coragem de encarar as pessoas que a olham com espanto e curiosidade. Deseja sonhar com coisas bonitas e prazerosas e, invariavelmente, acorda descalчa, em uma rua movimentada. Gosta muito de escrever. Tem a mania de anotar tudo o que lhe acontece, com letra miњda e bem feita. Nуo щ propriamente um diсrio, o caderno de capa preta que esconde de todos. Inventa, recria histѓrias a partir de tudo: fatos bobos e sem importтncia, aborrecimentos do dia a dia; a ocasiуo, por exemplo, em que se perdera, procurando a casa da tia, resultou em pсginas e mais pсginas de uma narrativa sem pщ nem cabeчa, como tudo o que escreve. O episѓdio de hoje poderia render muito mais. Jс pensara atщ no tэtulo: “Sem dinheiro e de chinelos”. Ficou sentada por muito tempo, encolhendo as pernas com o intuito de esconder os pщs. Uma mulher aproximou-se, passou por ela, sem olhar, com uma bolsa de supermercado. Era baixa e gorda e, estranho... tambщm estava de chinelos, atitude imperdoсvel para os seus princэpios. Esticou as pernas e olhou para os pщs. Estavam sujos, cobertos de poeira. (que vergonha, pensou.) Encolheu de novo as pernas. Com o entardecer, a praчa foi criando vida. Um grupo de crianчas chegou e, com uma bola, comeчou um jogo animado. As crianчas corriam e gritavam, dando chutes furiosos. Atщ que aconteceu o que mais temia: a bola veio voando em sua direчуo (oh! eu sabia, vou levar uma bolada...), bateu no chуo e rolou, suave, para perto de seus pщs. Um menino sardento e suado surgiu р sua frente (desculpa, tia, desculpa) e saiu correndo com a bola dominada, nуo lhe dando tempo de reagir. Ficou olhando a algazarra das crianчas, enquanto imaginava uma vida e um destino para cada uma (opa! isso vai dar uma histѓria e tanto.) Logo mudou de idщia, quando viu um casal chegando. Pareciam apaixonados, vinham de mуos dadas, de vez em quando paravam e se abraчavam, rindo muito. Eram quase da mesma altura. Os cabelos ruivos do rapaz caэam sobre os enormes ѓculos escuros, conferindo-lhe uma aparъncia estranha, que, de longe, lembrava um personagem de desenho animado. A moчa, de saia muito curta e botas muito longas, que iam atщ os joelhos, parecia adorar aquele visual pѓs-modernэssimo. Sentaram-se do outro lado da praчa, em frente a ela. Trocaram carэcias, beijos apaixonados, sem se importar com as pessoas que passavam, com as crianчas que corriam atrсs da bola. O amor, em especial o amor adolescente, tem esse poder extraordinсrio: anula, obscurece, dilui todo o resto da humanidade. (Todo o resto da humanidade, nуo, pensou ela). No meio de um beijo interminсvel, com direito р lэngua, mordidas e quejandos, o celular tocou. Separaram-se imediatamente, como que atingidos por um raio. Era para ela. Saltitante, andou alguns passos para atender a chamada. O rapaz, aborrecido, virou de costas para a jovem, que falava, gesticulava, afastando-se cada vez mais. Encerrada a ligaчуo, voltou para o banco. Mas algo se quebrara, o encanto desaparecera, com a interferъncia da tecnologia, tуo cara para jovens adolescentes. Trocaram algumas palavras e partiram , cada um para o seu lado. (Pareciam tуo felizes e brigaram por causa de um celular idiota, murmurou ela). Comeчou a escurecer, as crianчas desapareceram sem que ela percebesse. Um homem passou arrastado por seu cуo enorme, uma mulher tentava conter o filho pequeno, que esperneava em seu colo, luzes se acenderam. E ela continuava ali, imѓvel, ausente. Um homem sentou-se ao seu lado, fazendo-a estremecer. Precisava voltar para casa, nуo poderia passar a noite na rua. Isso tambщm era contra os seus princэpios. Levantou-se com dificuldade, caminhou sem olhar para trсs, a mochila ainda mais apertada contra o peito. Depois de alguns minutos, chegou a casa, abriu a porta devagar. O caos continuava lс. E ainda permaneceria por muito tempo, nуo tinha como fugir. Olhou em volta, num misto de horror e conformismo: mѓveis em pedaчos, sacos de cimento, ferramentas, latas de tinta, livros espalhados, trouxas de roupas, tudo, tudo, fora de lugar e muita, muita poeira... No entanto, em meio a tanta desordem, um fato a deixava mais deprimida: nуo conseguia encontrar o seu caderno de capa preta. ,U љ   : < • – и й Ю  Ž 3Š‹Лє]nІбя%59W{™МНжцы&'Dcn}ЖіщмЯТЯімЕмЕмЈмЈЕЈЕ›Т›ŽЯށށށށŽЕТТށށށth|YБhњSOJQJ^Jh|YБhйrмOJQJ^Jh|YБhш\OJQJ^Jh|YБh}OJQJ^Jh|YБhhЎOJQJ^Jh|YБhbnяOJQJ^Jh|YБhл.эOJQJ^Jh|YБhSQ*OJQJ^Jh|YБhМsOJQJ^Jh|YБhИu OJQJ^Jh|YБOJQJ^J,23B Г Ž љ ‹Нсєзmдх|s|м Y!єєєєєєєєєєєєєєєєєєє $dрa$gd|YБY!§ЖеZyжрсЏАє2=>Wqr3JQ`fg­­Џжз  ЄЅјXYr’вгдежт)ГуфѓцйцѓЬцПцПВПѓЅПѓПЅВПВЅВПЅ˜П˜ѓ˜ѓ˜‹˜‹˜Ѕ˜Ѕ‹Ѕ‹˜‹Ѕ‹~Ѕ~h|YБh(jOJQJ^Jh|YБhO+OJQJ^Jh|YБhjjOJQJ^Jh|YБhЦH.OJQJ^Jh|YБhGv˜OJQJ^Jh|YБhЃaKOJQJ^Jh|YБhш\OJQJ^Jh|YБhйrмOJQJ^Jh|YБhњSOJQJ^Jh|YБhaдOJQJ^J1фх"#M„Щжыy{|9| !!!Y!ѓцйцЬПйПЬВЬПцϽϘЅВ˜h|YБhhOJQJ^Jh|YБh|YБOJQJ^Jh|YБh.4ГOJQJ^Jh|YБhMAеOJQJ^Jh|YБhaдOJQJ^Jh|YБhЦH.OJQJ^Jh|YБh(jOJQJ^Jh|YБhjjOJQJ^J,1hА‚. 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